domingo, 27 de março de 2011

Incipit

No tópico "formas e estratégias", nos detivemos na análise do registro inicial dos diários de Getúlio Vargas, Eduardo Frieiro, Ruy Coelho, Darcy Ribeiro, Lúcio Cardoso e Roberto Alvim Corrêa (v. bibliografia). Interessou-nos, particularmente, o olhar dos próprios autores sobre a escrita autobiográfica forjada nos diários. Localizamos nos textos "justificativas" e "finalidades"; pactos de escrita e de leitura; processos de animização do suporte da escrita, perspectivas de partilha da memória.

Aqui vão mais dois textos que trazem outros elementos discursivos importantes para a discussão sobre "pactos de leitura".

1. Paulo de Almeida Nogueira, Minha vida: diário de 1893 a 1951 (p. 11-12).

"1893/ Janeiro - Em primeiro lugar, cumpre-me historiar a aquisição deste pequeno e apropriado caderno de notas.// Estava nos seus últimos dias o ano de 1892, quando me surpreendeu um pequeno cartão, subscrito por letra não desconhecida e cujo conteúdo não era mais do que um simples, porém irrecusável convite. Esse convite não era para um grande e aparatoso baile, nem para esses suntuosos festins, onde somente se observa a disputa de sedas, das casacas, do luxo enfim, mas sim para uma dessas festas familiares e íntimas, onde só reina a palestra amável, entretida por todos aqueles que, ou ligados pelo parentesco ou pela amizade, têm a ventura de achar-se congregados. Essa festa familiar era a que se faz para comemorar na minha opinião o dia mais feliz para a humanidade, era uma singela festa de Natal, que não podendo ser feita no dia 24, como se usa, teve lugar no dia imediato, isto é, 25 de dezembro. Tenho recebido o convite, como já disse, no dia marcado para a festa lá compareci e então, aí, a sorte premiou-me com este pequeno caderno de notas. A casa onde teve lugar essa festa de Natal, a primeira que tive ocasião de assistir e de que, excusado é dizer, gostei extraordinariamente, era de uma das minhas mais queridas primas, cujo nome é Camila. A descrição da festa, que mais tarde farei, acompanhará uma outra de uma agradabilíssima 'soirée' que na mesma noite assisti, em casa do do Dr. Antonio Lobo e da qual saí extraordinariamente satisfeito. Do que acima disse, pode-se ou mesmo se deve concluir que bem poucas noites tenho passado ou poderei passar iguais, para mim, à de 25 de dezembro de 1892.// No mês de janeiro nada de importante para mim se deu. [...]"

2. Roberto Cardoso de Oliveira. O diário e suas margens: viagem aos territórios Terêna e Tükúna. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2002, p. 23.

"Campo Grande, 24 de julho de 1955/ Vinte e duas horas. Ouço o ranger dos vagões na estação de Campo Grande. Parece que estão fazendo manobras. Estou no Hotel Gaspar, distante poucos metros da ferrovia Noroeste do Brasil (NOP) e, em meu quarto, no terceiro andar, inicio este diário às vésperas de minha pesquisa entre os Terêna.// Mas procurarei começar pelo princípio. Saí do Rio de Janeiro no dia 18 [...]."

3. Luis Lustig. O mais bonitinho perdeu o rabo: diário de um adolescente, p. 9.

"24 de janeiro [1956] Resolvi iniciar este diário porque estou triste, cheio de saudades, e preciso desabafar."

17 comentários:

  1. apareci por aqui... para variar, estou com pressa, mas quando tiver tempo e algo interessante para dizer, posto novamente...

    ResponderExcluir
  2. Vou postar aqui pensamentos, dos quais não tenho certeza alguma...
    Hoje conversei com minha irmã sobre os tais diários. Ela própria é uma escritora comprometidíssima com seus cadernos e já desenvolveu uma série de processos para organizar seus registros, inclusive tendo vários cadernos sendo escritos ao mesmo tempo.
    Acredito esse ser um dos objetivos daquele que escreve diários: organizar. Organizar pensamentos, sentimentos, acontecimentos. E aí entra também a história de justificar a escrita, explicar quais os objetivos nela e como ela se faz. Assim, o autor consegue, ou espera conseguir, um esclarecimento em relação ao porque de escrever suas experiências.
    Por outro lado, eu mesma já me peguei escrevendo sobre o escrever no diário com o objetivo de explicar para possíveis futuros leitores o que pretendo alí, no texto. É um momento de diálogo mais direto com o leitor, em que quase comento com ele o que estou fazendo no presente, que para ele será passado.

    Quero falar de mais uma coisa, mas vou dividir em dois posts. Senão vai ficar muito grande e a maioria vai ter preguiça de ler...

    ResponderExcluir
  3. Hoje fui numa exposição no itaú cultural:
    http://itaucultural.org.br/leonilson/index.cfm/f/palavra/anota%C3%A7%C3%B5es
    Leonilson - Sob o peso dos meu amores

    As obras são lindas, mas o que interessa aqui é a forma como expuseram os cadernos do autor. Cada caderno (entre eles cadernos de anotações, desenhos, agenda pessoal e outros)foi digitalizado individualmente. O conteúdo é oferecido através de uma tela sensível ao movimento, na qual o visitante da exposição tem a oportunidade de folhear as páginas e dar zoon em algo que lhe interesse em particular.
    Eu fiz até um vídeo de como interagi com a tecnologia da exposição. Não tenho como postar aqui mas posso mostrar na aula.
    Abraço,
    Ligia

    ResponderExcluir
  4. Se alguém que tiver o livro puder verificar se neste link encontra-se o livro inteiro (o diário da Morley), faria grão favor à humanidade, das quais fazemos parte, e agradece-se.

    http://pt.scribd.com/Helena-Morley-Minha-Vida-de-Menina/d/6630207

    Lucas

    ResponderExcluir
  5. Voltando para casa (ônibus, metrô, troleibus), fiquei pensando nos exercícios de escrita do Couto Magalhães e seus motivos. Este diário sempre é pensado como o modelo "legítimo" de diário íntimo em que a pessoa escreve de sí, para sí. Mas seria preciso nesse caso tanta preocupação com uma escrita regular, legível?

    ResponderExcluir
  6. Oi Malu, num enxerguei a escrita mais legível como forma de permitir melhor leitura por outros, mas como forma de otimizar mais uma das atividades cotidianas do autor - da mesma forma q contabilizava alimentação, reações corporais, gastos financeiros, enfim, o tempo gasto/perdido naquilo q fazia.
    abç e boa páscoa, wagner

    ResponderExcluir
  7. Pois é, Wagner, também coloquei isto na prova, um escritor contumaz (onde achei isto meu Deus?) de diários, procurando uma forma de escrever melhor, mais depressa, enfim, "ganhando" tempo. Mas depois me ocorreu que também poderia haver uma outra razão. Esta parece tão óbvia! Saberemos no dia 29. Até lá!
    Boa Páscoa para você também.

    ResponderExcluir
  8. acho que o couto não via o tempo como vivido, aproveitado, por conta da sua total contabilidade da vida
    a percepção de mundo dele é muito curiosa: com a leitura do livro, pude aguçar várias fontes de mundo
    e paro por aqui

    ResponderExcluir
  9. “Estilos da vida” é o nome do texto de Contardo Calligaris a que referi na aula do dia 29/04, e que foi publicado na “Ilustrada” da “Folha de S. Paulo” do dia 21/04. Calligaris fala um pouco sobre um livro de Federico Fellini chamado “The Book of Dreams”, e sobre o interesse que o cineasta italiano tinha em registar seus sonhos. Pode ser lido em http://sergyovitro.blogspot.com/2011/04/contardo-calligaris-estilos-da-vida.html

    Abraços.

    ResponderExcluir
  10. Ciclo Roger Casement
    http://mariantonia.locaweb.com.br/prog/releases_2009_em_diante/2011/e_ciclo_roger_casement2.html

    ResponderExcluir
  11. Livro indicado no Curso sai em nova edição.

    Saiu uma nova edição de "Orgia - Os diários de Tulio Carella, Recife, 1960" pela editora Opera Prima. Confiram aqui: http://www.operaprimacultural.com.br/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=383

    Abraços.

    ResponderExcluir
  12. Como o próximo diário que leremos é o de Lima Barreto, lembro que por coincidência (ou não?,
    o caderno Sabático, do Estadão, publicou no sábado passado,dia 14/05, várias matérias sobre o autor, que também podem ser vistas no endereço
    topicosestadão.com.br/lima-barreto.

    ResponderExcluir
  13. http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/intimo.html

    Link para o diário do Lima Barreto.

    Lucas

    ResponderExcluir
  14. Hoje, domingo, a Folha publicou artigo sobre vida e obra de Lima Barreto no caderno Ilustríssima. O texto é muito longo para postar aqui; portanto, poderei mandar via email caso algum de vcs não consiga acessar o mesmo em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il0506201104.htm
    Abç, wagner

    ResponderExcluir
  15. Pretendia terminar de ler o Diário de Lima Barreto no domingo. Não consegui. Estou me aproximando da página 100. Fiquei muito impressionada com uma frase na página 54 (19 de janeiro). Parece sintetizar sua vida (e obra) de uma forma dolorosa, pungente. Não consigo esquecê-la! Lima Barreto escreveu: Eu vejo o mundo mau através da minha dor.

    ResponderExcluir
  16. Oi gente! O que vocês estão achando do livro Quarto de Despejo? Eu gostei muito de ler este diário, é muito interessante observar a maneira que a Carolina vê o mundo.

    ResponderExcluir
  17. O professor disse que em Minas achavam que a Carolina era feiticeira. Acho que ela era mesmo, "encantou" a todos nós, não vai sair de nossas vidas. Assim como o professor Marcos, outro "bruxo", cheio de "encantamentos".
    Ah, encontrei o professor Sebe no Simpósio da ANPUH e falamos da Carolina. Ele também é "bruxo"!

    ResponderExcluir