No tópico "formas e estratégias", nos detivemos na análise do registro inicial dos diários de Getúlio Vargas, Eduardo Frieiro, Ruy Coelho, Darcy Ribeiro, Lúcio Cardoso e Roberto Alvim Corrêa (v. bibliografia). Interessou-nos, particularmente, o olhar dos próprios autores sobre a escrita autobiográfica forjada nos diários. Localizamos nos textos "justificativas" e "finalidades"; pactos de escrita e de leitura; processos de animização do suporte da escrita, perspectivas de partilha da memória.
Aqui vão mais dois textos que trazem outros elementos discursivos importantes para a discussão sobre "pactos de leitura".
1. Paulo de Almeida Nogueira, Minha vida: diário de 1893 a 1951 (p. 11-12).
"1893/ Janeiro - Em primeiro lugar, cumpre-me historiar a aquisição deste pequeno e apropriado caderno de notas.// Estava nos seus últimos dias o ano de 1892, quando me surpreendeu um pequeno cartão, subscrito por letra não desconhecida e cujo conteúdo não era mais do que um simples, porém irrecusável convite. Esse convite não era para um grande e aparatoso baile, nem para esses suntuosos festins, onde somente se observa a disputa de sedas, das casacas, do luxo enfim, mas sim para uma dessas festas familiares e íntimas, onde só reina a palestra amável, entretida por todos aqueles que, ou ligados pelo parentesco ou pela amizade, têm a ventura de achar-se congregados. Essa festa familiar era a que se faz para comemorar na minha opinião o dia mais feliz para a humanidade, era uma singela festa de Natal, que não podendo ser feita no dia 24, como se usa, teve lugar no dia imediato, isto é, 25 de dezembro. Tenho recebido o convite, como já disse, no dia marcado para a festa lá compareci e então, aí, a sorte premiou-me com este pequeno caderno de notas. A casa onde teve lugar essa festa de Natal, a primeira que tive ocasião de assistir e de que, excusado é dizer, gostei extraordinariamente, era de uma das minhas mais queridas primas, cujo nome é Camila. A descrição da festa, que mais tarde farei, acompanhará uma outra de uma agradabilíssima 'soirée' que na mesma noite assisti, em casa do do Dr. Antonio Lobo e da qual saí extraordinariamente satisfeito. Do que acima disse, pode-se ou mesmo se deve concluir que bem poucas noites tenho passado ou poderei passar iguais, para mim, à de 25 de dezembro de 1892.// No mês de janeiro nada de importante para mim se deu. [...]"
2. Roberto Cardoso de Oliveira. O diário e suas margens: viagem aos territórios Terêna e Tükúna. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2002, p. 23.
"Campo Grande, 24 de julho de 1955/ Vinte e duas horas. Ouço o ranger dos vagões na estação de Campo Grande. Parece que estão fazendo manobras. Estou no Hotel Gaspar, distante poucos metros da ferrovia Noroeste do Brasil (NOP) e, em meu quarto, no terceiro andar, inicio este diário às vésperas de minha pesquisa entre os Terêna.// Mas procurarei começar pelo princípio. Saí do Rio de Janeiro no dia 18 [...]."
3. Luis Lustig. O mais bonitinho perdeu o rabo: diário de um adolescente, p. 9.
"24 de janeiro [1956] Resolvi iniciar este diário porque estou triste, cheio de saudades, e preciso desabafar."